Queridas grávidas e mães de bebés mini (não leiam, por favor).

Desculpem este texto tão cru. Mas preciso que saia de mim para quem o queira e possa ler.

 

Perdemos mesmo um filho, sabem?

Talvez muitos não o compreendam assim. A sociedade também não está pronta para receber estas mulheres. Porque não o viram? Porque não o sentiram? Porque não teve oportunidade de dar gargalhadas fantásticas, sorrisos malandros, beijinhos apertados.

Desde que soubemos que o ZM podia nascer com problemas graves (ou sem problema nenhum), que o nosso médico nos disse: "temos que falar".

Eu sabia o que ele queria dizer com isso. Eu sabia que nos ia deixar nas mãos uma decisão.

No fim, deu-nos os parabéns, disse: "Estiveram impecáveis". E não me senti orgulhosa nem feliz, nem me aconchegaram minimamente aquelas palavras. Fomos poupados a uma decisão dura; mas não me posso sentir feliz por isso.

 

Ás vezes aqueles dias estão mais frescos na minha memória. Não apenas o dia da consulta, mas a semana anterior, de dúvidas, incertezas, alguma angústia. Lembro-me de já ter contado a outra amiga que estava à espera de bebé também, que já o conseguia sentir quando me sentava. Lembro-me de saber as datas de tantas outras amigas que estavam (e estão) à espera dos seus bebés. Lembro-me dos saldos e do body e  o fofo amoroso que comprei.

Lembro-me de apesar de não estar em forma, de todo, a M dizer-me que estava mais magra. Lembro-me de duas perguntas de uma tia muito querida (mas que desconfio que tem conhecimentos que transcendem a maioria de nós) "Então esse bebé mexe muito?  não tia.", e no dia seguinte: "Então esse bebé, mexe muito? não tia."

Lembro-me de quando me deitei na maca a barriga ficou quase lisa, o médico procurou os batimentos, procurou, procurou e eu olhava para o M, e ele para mim e já sabíamos. Lembro-me da minha querida mãe, apanhada de surpresa na confirmação da maior tristeza da minha vida.

De esperarmos por desenvolvimentos. De esperarmos por sinais de trabalho de parto. "O Bebé já é grande, não podemos fazer disto um filme de terror...";

5 dias depois começaram as contracções; ainda passei um dia e pouco com elas até ir as urgências. "Você está com contracções, não está? Venha, vamos fazendo o ctg..." dizia a senhora que nos chamava para os gabinetes e que, coitada, não fazia ideia porque é que eu ali estava.

Lembro-me da melhor coisa que me deram nesse dia, e que me ajudou na hora a viver tão calmamente esse dia. Morfina. Lembro-me de agradecer mil vezes ao M por estarmos no H da Luz e não num hospital público. Pela privacidade, respeito e dedicação que tive de todos os médicos e enfermeiras que lá passaram nesse dia a noite. Porque os meus pais também estiveram comigo.

Lembro-me de lá voltar 10 dias depois e de não me sentir bem naquelas paredes, naquele consultório. Querer fugir dali a sete pés.

Pensei que ia saber viver com esta perda. E talvez até saiba, e consiga. Mas é duro. E enquanto estou acompanhada é tudo tão fácil. Quando estou sozinha....

 

A todas as queridas leitoras e amigas que também vivem com esta dor e que me enviaram mensagens, e mails, etc, e às que não enviaram mas eu sei que estão aí, um abraço, forte.

 

 

 

20 comentários:

  1. Não tenho palavras, Catarina. Dizem que o tempo ajuda... Acho que deve ser verdade.
    Um dia após o outro, cheio de mimo, minha querida.
    Um grande, grande beijinho

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  2. Fizeste-me lembrar o que passei, mas de uma forma muito mais leve que tu (pois não foi tão tarde na gravidez, nem as expectativas chegaram a subir) e fiquei com o coração apertado... muitas pessoas não entendem. É verdade. Mas mais importante é nós conseguirmos dar um espaço mental à ideia do luto. Sim, porque a tristeza é muito grande. Precisei de consultar um psicólogo especializado nesta área, e foi o melhor que fiz. Espero sinceramente que tenhas a força necessária para continuar a viver (alguns dias com lágrimas outros com sorrisos), porque a dor não desparece rápido como gostam de nos fazer crer. Pelo contrário ela aumenta, mas acredita que as coisas melhoram. E muito!
    Beijinhos de muita força.

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  3. catarina, impossível não ler!
    estou marejada em lágrimas e nem imagino a dor que realmente seja...
    soube que estava grávida pouco tempo depois de ter partilhado aqui a foto do seu teste positivo. acompanhava e par e passo as suas novidades, cheia de entusiasmo e a rever-me tantas vezes.
    sinto muito e espero que um dia, com paz e tranquilidade, que o tempo tantas vezes nos trás, possa olhar para esse momento.
    ps - adoro o seu trabalho e a transparência com que partilha connosco tantos momentos da sua vida!

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  4. Custa muito sim, são sensações, momentos e muitos medos que ficam para sempre.
    Não se esquece nunca...
    Também passei pelo mesmo e nunca me esquecerei da estrelinha (que não chegou a ser) que estará junto de muitas outras, e certamente do vosso ZM a dar-nos força!
    Beijinhos grandes e um xi coração muito apertado!

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  5. Um beijinho. Não imagino o que se pode sentir na sua situação nem sabia de nada do que viveu e do sofrimento que sofreu, pois acompanho o blogue há pouco tempo. Nunca passei por isso, mas já tive 3 abortos espontâneos e sei bem o que custa e dói quando os nossos sonhos se desfazem. Felizmente, consegui voltar a engravidar, rezo para que esta gravidez de risco e ainda de poucas semanas seja um sucesso, e desejo tudo de bom bom para si e para a sua Familia.

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  6. Estou em lágrimas... isto avisava para as grávidas não lerem mas não se consegue não é? MUita, muita força!

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  7. Não achei o texto cru, verdadeiro, sim.
    I am so sorry for your loss. Unfortunately I too can relate.
    Estava em PT, tinha seguro de saúde mas fui vista de emergência num hospital público. Nunca passei por algo tão desumano na minha vida e ainda me perguntaram se tomei alguma coisa para fazer mal ao bebé?! Nunca me senti tão ofendida. No seu caso foi bem tratada, mas fico chocada de como as mulheres grávidas são tratadas nos hospitais em Portugal e ainda mais quando não há um bater cardíaco os médicos esperarem dias até haver contracções.Psicologicamente deixa-nos afectadas.
    Esse bebé chegou a ser sim, existiu e vai existir sempre na sua vida. O espaço vazio desse bebé ninguém, nem outro bebé alguma vez o tira, fica sempre lá. De qualquer modo o tempo ajuda a lidar melhor com a situação. Fazer luto é importante e muito necessário.
    Muita força.

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  8. Depois de assistir a esta gravidez tão de perto ,tal como as outras, Sei que custou, custa e custará algum tempo a passar! Mas graças a Deus tens um marido e uns filhos espetaculares, uma Familia que te apoia a 100% e acima de tudo, muitos amigos ( como nòs) que estamos sempre ao teu lado para quando precisares! Tens uma qualidade óptima: tens muita força de vontade, e sei que mais dia menos dia nos darás uma "novidade". Grande grande bj e muita força. Sofia

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  9. Olá Catarina, sei bem que neste momento nao existem palavras de consolo. Tb já passei por uma perda assim, estava com 37 semanas de gestacao. É verdade que o tempo ameniza a dor, e irá se transformar em saudades. Nao irei me prolongar, receba meu abraco apertado. Mt forca querida. Beijao no seu coracao...

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  10. Sem palavras...deve ser muito duro....força.
    Ana Antunes

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  11. Lamento muito o que aconteceu. Não consigo, sequer, imaginar a dor que é perder um rebento.
    Deixo-lhe um beijinho na testa e o desejo de melhores dias. *

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  12. Lamentomuito. Como já contei, também passei pela perda de dois bebés e foi atroz. Mas posso dizer que o tempo vai amenizando muito. Um dia de cada vez... Falar sobre o assunto faz muito bem.

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  13. Só para deixar um beijinho, de muita força e coragem!!!

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  14. Fica aqui o meu xi <3 apertadinho !!! Nunca falamos sobre isso mas também guardo em mim dois filhos que não nasceram...

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  15. Querida Catarina, não faço ideia pelo que estejas a passar porque nem grávida estive nunca mas ponho-me no teu lugar e sinto que é terrível. O que dizer? Olha para os bebés maravilhosos e sorri. Se pensares no que perdeste e te apetecer, chora. Não há mesmo nada que possas fazer a não ser deixar passar a dor por ir até ela ir embora porque com o tempo, ela vai embora.

    Um grande beijinho

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  16. Não tenho comentarios Catarina, apenas posso desejar-te forças para superar isso. Bjinhus

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  17. Querida Catarina, não imagino a dor que estás (estão) a sentir. Mas acredito que superamos tudo e que somos sempre muito mais fortes do que julgamos. Tudo passa (o que não é o mesmo que dizer que tudo se esquece) e a tua dor também passará ("passará"). Farás o teu luto e um dia será (apenas?) uma dor ténue que compensarás com tantas outras cisas boas que a vida te dá e dará.

    Um beijinho sincero.

    Ps. Apenas dizer-te que não subestimes o SNS e o respeito com que trata os seus pacientes. Nestes casos, as pacientes têm também quartos privados, por exemplo. Além de que estamos também muito bem servidos de equipas médicas e enfermeiras no público. Tal como os maus (infelizmente) também os bons profissionais estão em todo o lado.

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  18. Catarina, gostava de dizer que não sei que dor é essa e deixar apenas aqui um beijinho de muita força. Mas infelizmente, sei. O que mais me custou para além da perda em si, das expectativas que criei irem por água abaixo, apesar de não ter sido uma gravidez planeada, foi sentir que o meu luto tinha um prazo. Por isso, muitas vezes tive que chorar sozinha. A verdade é que passou, avancei para uma nova gravidez, tenho a minha filha linda, e toda aquela tristeza e dor vão já muito longe. E é o que vai acontecer, mesmo que uma coisa destas nunca se esqueça.
    Portanto, deixo aqui na mesma o meu beijinho de muita força e solidariedade. Acredito que vai haver um dia em que, tal como todas as que passamos por isto, vai pensar mais no futuro do que no passado. Desejo que chegue rápido.
    Um beijinho e... até amanhã! ;-)

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  19. Recebo o teu abraço apertado e retribuo com muito amor!
    Bjs

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