O dia da Leonor

A mexer em fotografias antigas, fui dar de caras com esta. Provavelmente há algumas mais bonitas, outras que mostram o meu cansaço (e o dela), mas esta sempre me fez parar duas vezes. Tão desenhada, teve esta cara uma semana (se tanto) depois mudou, mudou logo!

A Leonor deu-me uma gravidez santa. Não me posso queixar de nada. Estava no último ano da faculdade, fiz o primeiro semestre inteiro, aulas a desenhar e a pintar, sempre em pé, no meio dos óleos e das terbentinas, em que a modelo também estava grávida. Em Março, já quase no fim, começaram as contracções, aquelas em que ficamos com a barriga dura. Eu tinha-as muito, e achava uma certa graça. Como não tinha ainda seguro, fui seguida no centro de saúde e depois no Hospital de Santa Maria, fui "escolhida" por uma médica que ficou radiante, quando olhou para o corredor e me viu entre mil etnias diferentes. "Aquela é minha", ouviu-se ao fundo.

Na consulta das 37 semanas a médica diz-me: "grávida tem direito a ser histérica" por isso alguma coisa que ache fora do normal, venha imediatamente! (e que remédio tinha eu? ali ninguém dá números de telefone a ninguém), por isso, a qualquer noite de contracções lá estava eu, pronta para ver se era dessa!

Das duas vezes que fui às urgências com contracções, a primeira, não era nada, a segunda a médica até me disse que estava em trabalho de parto, mas com pouca dilatação e que valia a pena ir dar uma volta ao estádio universitário e regressar quando sentisse as contracções mais apertadas. Fui eu, a minha mãe (que entretanto já tinha ido para casa fazer sandes, qual ciganita, a pensar na noite que ia passar por ali), o M e uma das minhas irmãs. Fui a casa dos meus pais jantar, o meu pai até me filmou na saída para o hospital e não me deixou comer quase nada, defeito de profissão, e se fosse preciso uma cesariana?
Saí, fui ao hospital ser reavaliada, e surpresa? Voltou tudo atrás. Afinal ainda tinha mais duas semanas pela frente, mas segundo a médica, podia ser a qualquer altura!

Quando fui à consulta das 40 semanas, fiz o primeiro ctg durante a consulta. A minha barriga era muito grande e facilmente o ctg perdia o foco, por isso fiquei uma hora para conseguirmos ter um registo decente. A médica ao ler o ctg disse que o bebé estava taquicardico, e que devia ir às urgências pedir uma reavaliação. O quê? Pensava eu para mim, o bebe não está bem, eu estou de 40 semanas e tenho de ir ainda às urgencias? Nas urgências a informação saiu ao contrário. Estava tudo bem, não havia motivo para alarme.

A minha mãe torceu o nariz, e no dia a seguir mandou-me ao médico dela para saber o que se passava realmente. Tive sorte, nessa manhã comecei a ter imensas dores, e do médico passei imediatamente para o HSM, porque já tinha 3 cm de dilatação.

E começou um pequeno inferno. Chegar às urgências, explicar que estás em trabalho de parto. Enfermeira pede para despir, despes a muito custo, tirar os sapatos é um suplício, as contrações sempre a apertar. Toque. Sim, está em trabalho de parto. Agora vista-se e passe ao gabinete da médica. Visto a muito custo, calço-me a muito custo. No gabinete, agora dispa-se outra vez, quero ver isso. Já vou a meio, aifnal não, basta fazermos uma ecografia para saber a posição do bebé. Veste de novo... dores, muitas. Vontade de bater naquelas senhoras todas, imensa. Ecografia, o bebé não está encaixado, nem sentado, está posicionado ao longo da sua barriga. Que bom saber isso!

Assinar papeladas, sim, sei que é um hospital -escola. bla bla bla...

Subir para o internamento, deixaram-me numa casa de banho que não deve ver uma lata de tinta há mais de 50 anos, de metro por metro, para trocar de roupa. Saio, não está ninguém à minha espera nem sei para onde tenho que ir. Estou no meio do corredor e ninguém me pergunta se preciso de alguma coisa. Muitas dores, faço-me à vida. Desculpe, estou em trabalho de parto e já mudei de roupa, para onde vou agora?
Sala de dilatação. O M sempre lá em baixo, ainda não podia estar comigo.
Levei a epidural, levei recomendações para chamar a pedir o reforço assim que começasse a ter dores de novo, e não deixar passar muito tempo. Miguel sobe. Fica 20 minutos comigo, muda o turno das enfermeiras Miguel desce. Passam-se algumas horas, são 6 da tarde e nada de Miguel. Pergunto pela 3ª vez à enfermeira se já o chamaram, diz que sim. Então porque não vem? Ás 7 lá aparece ele, diz-me que o segurança não o deixava subir. (malditos(as)?). A essa hora já tinha pedido o reforço da epidural, mas o novo anestesista achou que as minhas dores não eram suficientes, e voltaria depois. Não voltou, uma cesariana prendeu-o e só o voltei a ver quando a epidural já não ia fazer efeito. Foram 4 duras horas de contrações sem parar.

As 21 nasceu. Eu não dei por nada, graças à miséria de epidural que restou. Soube depois que o médico foi lá buscá-la e posiciona-la, e que saiu com a ajuda de uma ventosa. O Miguel só dizia, radiante, que ela chorava! Deitaram-na em cima de mim, mas de rabo virado para a minha cara! Depois os pontos, esses custaram! Uma hora ali. Recobro no corredor, com todo o respeito que uma mulher merece depois de um parto de tantas horas. No corredor, onde passavam tantas grávidas e tanta gente. Eu ali com ela, a termos os primeiros momentos a duas, onde mamou pela primeira vez, e pegou tão bem. Muita sede, muita fome, e todas as enfermeiras fugiam de mim. Lá consegui um quarto, onde só havia duas camas (que bom, que bom!), e onde passei os restantes 4 dias, entre uma transfusão para mim e uma cama de luz para ela. Foram 4 longos dias, em que o final nunca parecia chegar.

A primeira noite fiquei com ela na minha cama, perdi muito sangue e não me podia levantar. Ela olhava para mim, e eu para ela. Assim as duas, a noite toda. Foi uma paixão, e continua a ser. Little Leonor of mine. 3,150 kg e 47 cm, um ratinho.


13 comentários:

  1. Obrigada Catarina por partilhares com tanto amor esta história. Beijinhos

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  2. Ola Catarina gostei tanto da historia. So vejo um futuro cheio de felicidade e inspirador para as pessoas que a leem.

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  3. Catarina que relato tão real e presente! O meu primeiro filho também nasceu em Sta Maria, mas foi tudo muito mais calmo e "assistido"! ainda assim consegui rever tudo, as casas de banho, a entrada nas urgências (só me despi uma vez, ao vestir-me rebentou a bolsa e então já não havia nada a vestir senão aquela bata), o corredor do recobro!mas tudo tão calmo e até silencioso (ou então era eu que estava "noutra"). Quase a viver(mos) outro parto e as memórias do primeiro só me deixam saudades e vontade de estar nesse dia maravilhoso outra vez! A Leonor, linda, como sempre.

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  5. Catarina, parabéns pela Leonor e pela coragem de ir no 3º filho.
    Para quem trabalha todas as semanas na equipa de urgência de Obstetrícia em Santa Maria, esta imagem em espelho que o seu texto descreve é, como pode calcular, da maior importância. Muito obrigada pelo seu testemunho.
    Só lhe posso desejar uma hora pequenina!
    Felicidades :)

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  6. A Leonor estava um "ratinho" lindo! :)
    beijinhos

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Obrigada por partilhares. O parto de um primeiro filho E sempre especial, seja porque razao seja. Estou a espera do meu segundo e tive a sorte de ter tido uma experiencia muito diferente da tua com o meu primeiro bebe. Vivo na Australia e tudo funciona muito diferente por aqui. Tu mandas nesta hora e nao ha ninguem que se atreva contrariar uma parturiente! Espero que tenhas um parto muito diferente desta vez, mas que o resultado seja o mesmo: um bebe lindo e uma familia orgulhosa do novo membro :)

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  9. Eu não sou mãe e este post não me chocou em nada... antes pelo contrário, achei um relato real e emotivo qb.
    (e eu sou aquela que já uma vez deixou um comentário/crítica menos positiva...)

    Acho que o Sebastião não vai ser um ratinho :) mas desejo-vos uma hora pequenina e feliz.

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  10. É a segunda vez que leio o seu testemunho e considero-o muito especial <3
    Desejo uma hora (minutos pequeninos ) no nascimento do Sebastião.

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