Mãe

Tive uma professora [que me marcou profundamente] que nos perguntava numa aula de religião, para além das ciências da natureza, e da última e muito difícil para todos, hora de quarta feira- o encontro de turma. "Qual é o vosso projecto de vida?"

Com isto nós respondíamos aquilo que sonhávamos ser os anos depois dos "20", quem seríamos, o que faríamos. Qual a nossa profissão. Muito sucintamente, quais as nossas expectativas em relação à nossa profissão. Tínhamos 14 anos, responder a esta pergunta com "uma profissão", ou entender que teria uma resposta imediata, apenas uma e tão simples quanto um emprego, seria sempre pouco, ou mesmo leviano.

No silêncio da minha casa, enquanto eles já dormem e estou sozinha na sala, dou por mim a voltar 14anos atrás, e a ouvir a minha resposta e a reviver o choque do "contra- ataque" à minha tão simples resposta. O meu projecto de vida é ser Mãe.

E se não puderes ser mãe? E se não puderes ter filhos?
Qual é o teu projecto de vida?

A minha cara de espanto, desalento, incompreensão, raiva à mistura. "Se eu não puder ser mãe? Se eu não puder ter filhos?" 

Nos tempos seguintes fui compreendendo este contra ataque. De certa forma, hoje sinto que sei a resposta, mesmo não querendo dizer. Sinto a maternidade em tudo o que faço, em tudo o que já fiz; respiro e vivo entre os afectos. 

Querida professora a minha, que me desafiou com esta pergunta que eu não percebi. Hoje sei que um projecto nunca está terminado, tem propostas, contra propostas, questões, avanços e recuos. Acima de tudo, tem que poder ser escrito uma página em branco, sem linhas nem quadriculas. Tem que ter espaço para voltar a perguntar: o que é ser mãe? 
O que é ser artista plástica? 
Durante anos fui firme na minha convicção, a pintura é a minha vida. Um dia, uma outra professora disse-me que se eu quisesse muito ser artista plástica, se eu queria muito pintar, não podia ter uma família. E outro dia percebes que podes ser artista plástica sem pintar, e podes ter uma família. E um dia tens respostas.


O tempo passou, e com a ajuda das minhas mãos conto algumas pessoas assim, que ainda hoje me marcam, que ainda hoje consigo ouvir a voz e o constante desafio. Caramba, quero isso para os meus filhos, quero uma vida cheia e cheia de questões. Quero ser a vossa mãe e dar-vos essas ferramentas.



3 comentários:

  1. Há sempre amor nas tuas palavras, Catarina <3

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  2. Um texto cheio de amor... e como te compreendo!
    Também sempre senti que o meu grande objetivo de vida era ser Mãe. Vejo pessoas que pensam em construir carreiras, eu sempre pensei em constituir família :)
    Felicidades!!

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