Nascer

Nunca me preocupei muito em como nasceriam os meus filhos, a minha única preocupação é que corresse tudo bem para os dois.

A Leonor nasceu por "sorte" de parto normal, no Hospital de Santa Maria. Em nada participei neste parto, não havia maneira, por muito que fizesse força, ela não vinha. Não estava encaixada e por isso nasceu pelas mãos de um médico brilhante que, sem eu saber, a foi buscar e ajudou a nascer com uma ventosa.

Não sabia que já tinha nascido, não fosse o Miguel dizer-me radiante que ela chorava!

O Xavier (segundo filho), iria nascer 22 meses depois do parto da Leonor. Desta vez acompanhada por um médico num hospital particular. Desde as 37 semanas que fazia o "toque" e me dizia que estava tudo pronto e impecável, que dentro de pouco tempo iria ser mãe. Nessa altura recebi um telefonema do Hospital da Luz a informar-me que estavam prontos para a minha indução. (Indução, qual indução?)

Às 40 semanas ele falou finalmente na indução, segundo o médico o colo estava óptimo, e predisposto. Eu alinhei! Afinal já tinha chegado ao fim e estava morta de curiosidade para o conhecer.

A indução não durou 30 minutos. Passado pouco tempo começaram as contracções dolorosas, uma e outra e sem perceber já tinha 2 enfermeiras a darem-me oxigénio, a pedirem-me que mudasse de posição e, a sentencear a cesariana de urgência. O Xavier estava em sofrimento, as contracções estavam a provocar um corte no oxigénio.

Assim foi, a tremer e nunca pensando neste desfecho, ele nasceu, óptimo e gordo, com a notícia de que o cordão se tinha juntado em molho e estava entre a cabeça dele e o colo do útero. Ficamos a saber o motivo do sofrimento.

Tive dores insuportáveis no mês seguinte. O "click" com aquele bebé não foi imediato como na Leonor. Havia todo um processo pelo qual eu e ele não tínhamos passado. Sofri um pouco de baby blues. Chorei todos os dias de dores que nunca imaginei ter. Descobri na pele o que era a cesariana, as dores "tortas" e um pós-parto muito muito doloroso. Pensei que não queria mais daquilo.

Passados 18 meses decidimos ter o terceiro filho. Engravidei facilmente, mas começaram cedo as complicações. Nas análises das 12 semanas revelou contacto com toxoplasmose. Batia certo com os sintomas que tinha: cansaço extremo e um nódolo a crescer na zona da parótida. Às 17 semanas, numa consulta, recebemos a notícia de que o Zé Maria não estava bem. O médico não encontrava batimentos. Fomos fazer ecografia e confirmou-se. O passo seguinte seria esperar por sinais de parto. Uma semana e apareceram. Fui para o hospital e fiquei 12 horas para conseguir que o Zé Maria nascesse. As últimas horas com a ajuda de morfina. Foi muito doloroso o processo de trabalho de parto, mas senti uma coisa que nunca tinha sentido antes. Estava tranquila (morfina, morfina), e quando chegou a hora soube que tinha de fazer força, onde e como. O Zé Maria nasceu, apenas com a minha ajuda, a enfermeira apenas o recebeu de fugida para eu não o ver.
Foi a primeira vez que senti um filho meu nascer, e fiquei a conhecer uma realidade que até aqui ainda não tinha experimentado.


Queria sentir isto tudo, mas numa experiência feliz, com um bebé que estivesse bem, que pudesse vir para o meu colo, que fosse para nós, que ficasse connosco.

Quarta gravidez, e a esperança de entrar em trabalho de parto espontâneo para poder ter um parto natural. Esperamos até às 41 semanas e o Sebastião não desceu e o colo fechado. Não podíamos induzir depois da cesariana do Xavier. E tivemos que seguir para cesariana.

Foi a Cesariana e o pós parto mais tranquilo de todos. Não tive dores, não tive subida de leite dolorosa, o Sebastião foi um presente caído do céu.

Como somos doidos por estas crianças e sabemos que 4 iríamos sempre ter, e eu queria ter o seguinte bem próximo do Sebastião, aqui estamos, à espera da Graça e meio conformados com a sentença de que nascerá por cesariana, pelo risco de ruptura uterina das cicatrizes anteriores.



Mas temos este sonho, acabar como começamos, uma miúda e um parto normal, e arrumar a dor do parto do Zé Maria. Mas talvez essas dores existam porque fazem parte da nossa história.


6 comentários:

  1. Muito grata pela partilha, Catarina*

    Um abraço :)*
    Catarina

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  2. Tive o primeiro bebé num hospital particular com um médico xpto que me encaminhou para a cesariana sem que eu me desse conta. Nunca percebi bem o motivo, mas ingenuamente acreditei nele. Passei por todas as dores do pós-parto, a dificuldade em aceitar o parto que foi tudo menos o que sempre sonhei e o amor por um bebé que não foi de todo imediato. Ao fim de 11 meses estava grávida de novo porque queria que o meu bebé tivesse um irmão com idade próxima, mas morria de medo de uma nova cesariana. Todos os médicos indicavam que, pelo intervalo tão curto entre partos, seria certo a cesariana. Mas eu lutei e encontrei um médico excepcional que se colocou a meu lado e incentivou a tentarmos um parto natural. Assim foi, passados 20 meses de uma cesariana nasceu a minha menina de parto natural, super rápido e tranquilo e foi mágico, com direito a amor à primeira vista e tudo. Foi o Dr. Fernando Cirurgião e o parto foi no Hospital São Francisco Xavier. Não sou médica, mas acho que pode ainda sonhar com o seu parto natural. Bjs. Susana

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  3. obrigada por esta partilha. um texto escrito de certeza num fôlego... foi como o li!

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  4. A vida são todos estes momentos, e a Graça vai de certeza encher muito os vossos corações.
    Só fico com uma dúvida Catarina... será que é mesmo para parar por aqui? :) ainda não consigo imaginar ter "o último" bebé nos braços... ;)
    Um beijinho e tudo tudo tudo de bom!

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  5. cada filho com a sua historia...comovente,obrigada por partilhar aqui!

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